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[07/06/2008] - Sucesso econômico de Lula cria novos desafios para o Brasil
Antonio Biondi - Especial para a Carta Maior

SÃO PAULO E BRASÍLIA - O Brasil comemora notícias positivas na sua economia. O crescimento do PIB em 2007, de 5,4% permitiu vários avanços - e pode se repetir em 2008. Foram criadas, entre 2003 e 2007, mais de 6 milhões de empregos formais (novas vagas com carteira-assinada), sendo que 2007 estabeleceu o recorde a ser quebrado: 1,6 milhão de novos empregos.

Nos últimos dias, o país lançou uma ambiciosa proposta de política industrial - o Plano de Desenvolvimento Produtivo - e obteve o investment grade de parte de uma agência de classificação de risco, que colocou o Brasil no grupo dos bons pagadores mundiais - e portanto recomendável para novos investimentos (especulativos e produtivos) com menores riscos. E os trabalhadores viram o salário mínimo chegar a R$ 415 em 2008, assim como conquistaram aumentos reais em nada menos que 88% das negociações com seus patrões em 2007. Por fim, em uma das notícias mais comemoradas nos últimos anos, 20 milhões de pessoas deixaram a linha da miséria e da pobreza desde 2003, saindo das classes D e E, fazendo da classe C a mais numerosa e representativa do país.

Por outro lado, questões estruturais seguem inabaláveis nos rumos do Brasil. Os 10% mais ricos da população brasileira concentram nada menos que 75% de toda riqueza produzida pelo país. E a luta pela valorização do trabalho, diminuição da desigualdade e geração de renda para os brasileiros se vê enfraquecida, em boa parte, pelos altos juros praticados no país e pelos setores que mais se beneficiam dessas taxas. Basta lembrar que, na reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) de abril, a taxa básica de juros da economia subiu de 11,25% para 11,75%. É uma das maiores taxas do mundo em termos reais, já descontada a inflação.

No mês do trabalhador, Carta Maior entrevistou os presidentes do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), Márcio Pochmann, e da CUT (Central Única dos Trabalhadores), Artur Henrique, a fim de compreender a origem e significado das últimas conquista sociais e econômicas. E buscou apontar os novos desafios colocados pelo cenário ímpar vivido atualmente pelo Brasil. Para os entrevistados, o país está diante de uma chance histórica para estabelecer um ciclo prolongado de crescimento.

Para que se possa combinar tal momento com um desenvolvimento qualificado, os entrevistados apontam a importância de adoção de novas medidas, que aperfeiçoem ou até mesmo corrijam certas questões das políticas hoje adotadas pelo governo Lula na economia e na área social. Em destaque nas avaliações, a redução das taxas de juros, a adoção de reformas sociais, a construção de uma nova pauta de exportações e de uma efetiva política industrial, assim como o fortalecimento do mercado interno e das políticas sociais. Fatores que, sobretudo se trabalhados de forma articulada, surgem como essenciais para as transformações de que o Brasil precisa.

Na avaliação de Pochmann, o país se vê diante, hoje, de "uma oportunidade praticamente inédita para que as desigualdades sociais e a pobreza, assim como as discrepâncias que existem em termos de competição e de produtividade do Brasil em relação ao mundo, sejam muito menores do que as atualmente verificadas".

Além de Pochmann e Artur Henrique, Carta Maior entrevistou os professores Luiz Carlos Bresser-Pereira (Fundação Getúlio Vargas) e Waldir Quadros (Unicamp), assim como os presidentes dos sindicatos dos Metalúrgicos do ABC, Sérgio Nobre (eleito em abril), e dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região, Luiz Cláudio Marcolino. Edson Carneiro, da Intersindical, também registrou sua opinião sobre os temas. Até o fechamento do texto, o dirigente da Conlutas e servidor da Nossa Caixa, Dirceu Travesso, às voltas com uma demissão de caráter eminentemente político por parte do governo Serra em São Paulo, não havia respondido por e-mail às questões enviadas pela reportagem.

 
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