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[26/02/2008] - Fidel fica
 Não há uma só estátua de Fidel em Cuba. Nunca escutei alguém sugerir levantar uma em seu nome. O mais perto a um culto são os filhos a quem os pais chama como ele. Artigo de Tamara Roselló

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Tamara Roselló Reina,

de Havana (Cuba) *

No próximo domingo 24 de fevereiro o novo Parlamento cubano se reúne pela primera vez. A opinião pública, os grandes meios, esperam a ocasião com muita expectativa. Perguntam-se quem conduzirá o Conselho de Estado depois que o Comandante Fidel Castro comunicou em uma mensaje ao povo sua decisão de não aceitar o cargo de Presidente desse órgão de governo.

A decisão é muito importante para a Ilha, entretanto, nas ruas, as pessoas estão tranquilas, ainda que não faltem prognósticos e hipóteses para o cenário imediato. Ainda estão muito frescas as palavras de Fidel, publicadas na imprensa na terça-feira 19; entre elas e o futuro de Cuba existe uma inevitável conexão.

Antes foram seus discursos nos congressos ou intercâmbios com intelectuais, científicos, políticos, esportistas, camponeses, professores e estudantes. Agora são suas reflexões sobre temas históricos ou da atualidade as que conectam frequentemente o legendario líder com o povo. Ele mesmo anunciou que seguirá com essas contribuições, que o manterão ativo como aquilo que sempre foi: "um soldado das idéias".

Bem poderia aposentar-se para ter o merecido descanso, disfrutando do respeito e admiração que lhe obteve em mais de cinquenta anos de lutas e transformações sociais. Mas sua promessa de ser consequente até o momento final não o permite a assim fazer. Em troca, fez o que tem sido um princípio ético, colocar-se à disposição daqueles outros que o sucederão.

Sua vida é um arsenal de sucessos trascendentais que mudaram o rumo da historia do país, de outras regiões latino-americanas ou da mais distante África. Sua história foi tecida com muitos homens e mulheres, a quem acredita e admira como fazedores de seus próprios destinos, como impulsinadores de utopias. Toda essa gloria é também deles, de nós, seus contemporâneos.

Fidel marca un antes e um depois para Cuba e para os povos do Terceiro Mundo. Não o antes e o depois da renúncia que dará lugar a um suposto processo de transição, como alguns querem fazer notar; mas sim o que determina sua liderança, que colocou em xeque o mais poderoso governo do mundo, en meio a um contexto que privilegia a ingerência e a interdependência. Esse é um mérito imperdoável para os inimigos e uma das razões pela qual seu nome e seu exemplo ficarão junto a um pequeno país, que se fez gigante ao seu lado.

Não há uma só estátua de Fidel em Cuba. Nunca escutei alguém sugerir levantar uma em seu nome. O mais perto a um culto são os filhos a quem os pais chama como ele. Ainda que se declarou por muito tempo alheio às homenagens e às adulações, nos últimos meses não pode evitar que suas fotos e suas idéias se socializassem...

Em qualquer casa se pode ouvir uma anedota de Fidel: de suas visitas inesperadas à Universidad, ou a uma residência estudiantil; a um centro científico ou a uma central açucarera; do encontro em uma movilização de milhares de pessoas em que as muitas mãos tentavam saudá-lo; da sua preocupação pessoal pelo estado de saúde de um atleta doente ou pelo retorno ao api do pequeno Elián González; de sua capacidade de trabalhar até a entrada da madrugada e de sua resistência para falar por várias horas sobre diversos temas entrelaçados magistralmente.

Não faltam reprovações, e em muitas ocasiões ele é considerado o responsável pelas dificuldades econômicas com que vivemos. Em outras, diante de alguma irregularidade, as pessoas asseguram: "isso não sabe Fidel, porque se souber..."


A força de seu exemplo, seu sentido de dever, sua integridade como ser humano, quiça sejam parte do mistérop se sua personalidade atraente. Por isso, para muitos cubanos e cubanas, ser fidelista é a melhor maneira como se autodefinem, inclusive, acima de qualquer outra denominação gremial ou política.

Mas também fora da Ilha ele conquistou a milhares de pessoas. Basta dizer a nacionalidade cubana e a primeira pergunta gira em torno de Fidel, às verdades e mentiras que se dizem sobre ele.

Nem ao mesmo seus inimigos puderam ignorá-lo. Fracassaram todos os prognósticos da queda anunciada de sua "ditadura", e as mais de seiscentas conspirações para assassinar-lo. Falharon os cálculos dos dias que restavam a ele frente ao "sistema totalitário", diante das pressões do governo estadunidense e uma difícil crise econômica que piorou as carências no cotidiano da Ilha a partir dos anos 1990.

Fidel é uma lenda viva, um símbolo e sobretudo um extraordinario homem de carne e osso, por isso tem sabido colocar-se ao lado de seus semelhantes, dedicar a eles seus melhoresa nos, esforços e iniciativas; seus sorrisos e suas dores. Despertou durante todos esses anos os sentimentos que dão fruto em uma boa família: os de pai, irmão, avô e amigo.

Como ocorre em qualquer casa, cada vez que se toma uma decisão importante se escutará a esse integrante querido e respeitado. Ele desde seu repouso fecundo impulsionará os novos passos de seus filhos e filhas, de seus companheros de luta e de amor.


* Tamara Roselló é jornalista e editora da revista cubana Alma Mater

 
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